crónica

… de uma estranha visita ao Kruger Park.

Estando eu em Maputo, resolvi visitar esse famoso santuário sul africano da vida selvagem, que é o Kruger Park. Na agência de viagens disseram-me que uma família de portugueses, pai, mãe e 2 filhos, tinham viagem marcada para o Park  nos dias que eu escolhera para a visita. O director da agência aconselhou-me, “se viajar com eles a viagem fica-lhe por menos de metade do preço, porque todos vão utilizar o mesmo carro e motorista”. Eu estava um pouco renitente, viajar acompanhada não estava nos meus planos, por natureza gosto de viajar sózinha, alterar a meu belo prazer os meus planos e posso ser pouco sociável, dependendo das circunstâncias, o que não é simpático para ninguém. Viajar acompanhada iria ser  um esforço nesse sentido, teria de ser sociável. Aceitei o desafio, porque fazendo contas, era realmente um ponto a favor. Vamos lá então viajar com a dita família portuguesa. Para não ferir as susceptibilidades de uma respeitável família, vou alterar apenas o nome de cada um e o local de residência, tudo o resto é pura verdade! Um sul africano boer entrou no hotel e vi logo, pela farda daquele jovem que se dirigia à recepção, que era  ele o motorista que me levaria até à Africa do Sul. Depois das apresentações e de lhe entregar os documentos que me tinham dado na agência de viagens,  fomos em direcção à Van de 9 lugares. Lá estava a respeitável família, tipicamente portuguesa, já instalada. O motorista indicou-me um lugar ao lado da senhora e guardou a minha mochila na parte de trás. Apresentou-nos e fiquei a saber que era o senhor Manuel Silva e família. Heinrich, o motorista, deu-nos algumas indicações breves sobre a chegada prevista ao Park. Perguntou-me se eu  falava inglês, respondi que sim, mas avisei-o que teria de falar devagar, porque logo percebi no seu inglês gutural, o sotaque bem acentuado da língua boer. Pediu-me então que traduzisse sempre que fosse necessário dar alguma informação. Ok, está bem, pode ser. Dentro da cidade a viagem foi feita dentro de um silêncio sepulcral. Ninguém falava, nem tão pouco os dois irmãos, rapazes ainda adolescentes, sentados no banco atrás de mim. Até à fronteira com a Africa do Sul limitei-me a olhar a paisagem pela janela. Não acontecia nada de especial a não ser o pesado silêncio entre as seis pessoas que viajávamos na van. Foi quando chegámos à fronteira, que então foi necessário trocar algumas informações sobre os procedimentos alfandegários. O Heinrich  falava para mim e eu transmitia para o senhor Manuel Silva, homem na casa dos 40 e tais. A esposa falava apenas com os filhos ignorando completamente a minha presença. Obrigadinha pela atenção e eu retribuía na mesma moeda. Então iam todos vestidos a preceito, como se requer para uma visita a um park de animais selvagens. Todos de calções, t-shirts, botas e meias e o Sr Manuel Silva levava um chapéu catita, todo ele estilo safari. Eu estava impressionada com a produção, máquinas fotográficas digitais de bom modelo e camara de filmar também. À entrada para o park a senhora, que nunca soube o nome dela, avisou “Paulo já devias ter começado a filmar”. Foi então que começou o verdadeiro filme. Com as recomendações que o motorista e nosso guia também, me ia dando a propósito do pequeno almoço, passeio pelo park, almoço e regresso ao resort, eu via-me obrigada a comunicar forçosamente com o senhor Manuel, chefe da família Silva. Então apercebi-me que o senhor Manuel Silva, não conseguia dizer os “ÉLES”, ou seja essa letrinha do alfabeto, tão simpática, o “L”. Passando então eu a perceber que ele seria o senhor “Manuéu Siuva”, os filhos eram o “Pauo e o Heuder” e a esposa juro que nunca percebi o nome dela. Seria “Anabéua”? Durante o passeio a família soltou-se um pouco mais e o sr. Manuéu era o mais entusiasmado de todos. De binóculos avisava “gazéuas, vai auí um iufante, um rino ao uonge, um javaui, tantos bufauos,!!!”… Todo ele excitadíssimo, os olhos não lhe chegavam para tanta raridade de bicheza selvagem. À hora do almoço fiquei a saber que eram de “Barcéuos”, porque o senhor Manuéu era muito dado à conversa ignorando por completo a esposa, que se pendurava nele, não fosse eu roubar pedaço. Ao fim da tarde, não fosse o cansaço de tantos kms percorridos e eu já tinha estourado de gargalhadas, porque era impossível ouvir o discurso desanimado do senhor “Siuva”, que se lamentava porque não tinhamos visto “nem iões, nem iopardos”. Quando chegámos ao local onde iríamos pernoitar, uma casa  em Malelane, assim bem no meio do mato selvagem, fomos avisados que um casal norte americano, ali hospedado, se juntaria para jantar connosco ao ar livre e à volta da fogueira. Salvou-se o dia e a noite na companhia do agradável casal que eram de Boston. A conversa fluiu solta com os norte americanos e do outro lado da mesa o silêncio mantinha-se na ordem do dia. A família “Siuva” retirou-se e eu permaneci ainda um bom bocado do serão com o casal de Boston, que deveriam estar na casa dos sessenta anos. Eram interessantes e bons conversadores. Fizeram perguntas sobre Portugal, onde tinham estado de passagem. Quando souberam que no dia seguinte pelo meio dia, eu partia sózinha para Maputo, acharam que seria uma boa ideia viajar comigo e conhecer a capital moçambicana. No dia seguinte, o passeio recomeçava pelas 5h 30 minutos da madrugada e assim foi, a família Siuva, o casal de Boston e eu continuámos a nossa aventura pelo Kruger Park. Ao meu lado, a americana passado 10 minutos de viagem deixou pender a cabeça e adormeceu, o americano fotografava tudo o que era bicheza e conversava com o motorista, a família “Siuva” como sempre, caladinhos… Depois de mais umas voltas e uns quantos bichos voltámos à entrada do Kruger (Crocodile Bridge) onde todos entrámos numa loja, que vendia um pouco de tudo para além das lembranças típicas. Veio ao meu encontro  um homem alto e fardado, disse-me que seria ele que me levaria de volta a Maputo, perguntou pelos americanos e 15 minutos depois deixávamos o Kruger Park em direcção a Maputo. Passados 10 minutos a americana dormia. Durante a viagem  o motorista, o americano e eu conversámos sobre Moçambique, a Africa do Sul e Portugal. Quando cheguei ao hotel seriam 15h e 30 minutos. A americana entretanto tinha acordado, despedi-me de todos desejando uma boa viagem de regresso e subi para o meu quarto. Foi então que consegui libertar todas as gargalhadas que tinha contido naqueles dias. Não posso dizer:- “Eu já estive no Kruger Park!”, sem me lembrar do senhor “Manueu Siuva e família, de Barcéuos” ou da americana que dormiu 90% do tempo que viajou comigo no dia seguinte! Toda a bicharada selvagem foram um simples adereço naquela viagem esquisita! No entanto lamento não ter conseguido ver nem “iões, nem iopardos”!

Nota:Publicado no dia 8 de dezembro de 2009 no “falecido” blogue.
Ainda fica em nota de rodapé a pancada da americana que tinha medo  de ser raptada em Maputo e o tique do Sr. Manuéu Silva que para além de ser “lalo” andava sempre a “coça-los”. E eu a ser testada até à última gota da minha santa paciência. É claro que nos meus arquivos tenho uma fotografia da americana a dormir, mas coloca-la aqui parece-me mal. Afinal eles foram tão simpáticos.
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Sobre Juana

Esta é a minha vida, aquilo em que acredito. O mundo dá voltas, a vida passeia pelo fio dos dias e das horas e eu vou tentando manter o equilíbrio. Sempre na corda bamba.
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2 respostas a crónica

  1. Anónimo diz:

    Lindo! Adorei. Não percebi porque raio a familia portuguesa decidiu ir ver o kruger! Eu queria fazer esse tipo de viagem, mas por agora vamos num carro simples. vamos 3 ou 4 pessoas e espeo não ter que testar a minha paciencia! E vou j´no Sábadp

  2. Juana diz:

    se vão entre amigos vais gostar, só é preciso um pouco de paciência e experiência para saber onde estão os animais, os mais esquivos e aqueles que todos gostamos de ver. bom passeio.

comentários

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